Vivemos num tempo estranho, em que a imensa omnipresente possibilidade de comunicação não se traduz em satisfação relacional.
Podemos, num único dia, contatar com inúmeras pessoas espalhadas pelos diferentes continentes, podemos estar sempre em rede, sabendo o que acontece a amigos e conhecidos, sem que, por isso, nos sintamos mais acompanhados, mais compreendidos ou mais felizes.
Mesmo que não nos tenham ensinado, acho que fomos percebendo que a comunicação é para nós tão importante porque é o que serve de suporte àquilo que nós, humanos, valorizamos acima de tudo: as relações.
Precisamos, como de pão para a boca, de ter relações. Precisamos de ter relações amorosas que nos confirmem como seres amáveis e desejáveis. Precisamos de relações de amizade que nos garantam pertenças, programas, companhia. Precisamos de relações sociais que nos valorizem perante um grupo alargado que tomamos como referencia daquilo que é viver em sociedade. Precisamos de ter relações porque precisamos de outros que nos devolvam afetos e partilhem connosco interesses e significados.
Comunicamos regularmente com as pessoas de que gostamos e que valorizamos, a maioria das vezes apenas como forma de manutenção da relação. Telefonamos diariamente às mães, aos filhos ou aos amigos, apenas para dizer olá, repetindo conversas já havidas, dando informações desnecessárias, atualizando reflexões ou combinações em nada essenciais.
A maioria das vezes falamos não exatamente para dizer alguma coisa de extremamente relevante, mas para assinalar um espaço, para marcar uma presença, para manter um elo.
Paradoxalmente, os meios de comunicação a que conseguimos hoje aceder, destinados a facilitar a comunicação não resolvem, entretanto, os eventuais problemas de relação que possamos ter. Os meios são isso mesmo - apenas instrumentos - incapazes, por si mesmos, de operar mudanças ou de viabilizar relações.
As relações entre pessoas, hoje como sempre, vivem de muito mais do que comunicação. VIVEM DE AFETOS, EMPATIAS,PARTILHAS, ENVOLVIMENTO, CUMPLICIDADES, PROJETOS.
Atordoados pelo barulho das luzes, também aqui confundimos a nuvem com Juno.
-Isabel Leal-
