Há algumas semanas atrás, assistia a uma dessas séries policiais, entretenimento leve para o fim de noite, quando uma cena me chamou a atenção.
A investigadora forense envolve-se emocionalmente com o colega de trabalho. Enquanto o filme vai mostrando o desenrolar da investigação de um homicídio, o espectador acompanha, paralelamente, o desenvolvimento do relacionamento do casal.
Quando se descobre e prende o autor do crime, a equipa que se empenhou no caso reúne-se para comemorar e o diálogo entre eles é a cena final do episódio.
- sabe - diz o policia - o que estamos a viver é tão bom, e você tornou-se uma pessoa tão especial para mim que estive a pensar em juntarmos de verdade as nossas vidas. O que acha?
- para quê? - responde ela - Não está tão bom como estamos?
E eu fiquei a reflectir sobre a maneira de pensar a vida que tem-se tornado a marca da presente geração. Quem quer compromisso afinal?
É interessante como a intimidade assusta, nos nossos dias. E isso é reflexo da filosofia da cultura em que vivemos - uma cultura marcada pelo hedonismo e pelo individualismo. A busca do prazer imediato acaba gerando a "descartabilidade", e isso pode ser visto no homem moderno tanto na sua relação com os bens materiais quanto nas relações humanas.
Tudo é temporário e por isso mesmo superficial. A TV que foi comprada há tão pouco tempo, por exemplo, embora continue a funcionar bem, já não satisfaz mais, porque há outras no mercado a oferecer muitas outras vantagens que a sua versão não tem. E o facto repete-se quando pensamos em telemóveis, notebooks, cameras digitais e outros itens materiais.
A questão é que se o consumismo já gera problemas no âmbito dos bens materiais, imagine-se o estrago que causa quando ele se reflecte nas relações humanas. Podemos consumir bens e tecnologias, mas as pessoas não são bens descartavéis.
As pessoas precisam de se sentirem amadas e valorizadas nas suas relações. Quando isso não acontece, a insegurança e o medo da perda e da rejeição passam a accionar mecanismos de defesa.
Um desses mecanismos é a fuga da intimidade. É mais seguro transitar na superficialidade das relações, para não correr o risco de se sofrer quando se é descartado. A palavra extimidade, surge como um novo conceito introduzido a partir da chegada da internet e dos relacionamentos virtuais que ela passou a proporcionar através das redes sociais, é portanto a ideia oposta á intimidade.
Hoje trocamos confidências com quem mal conhecemos em ambientes virtuais, mas fugimos das conversas "olho no olho" em ambientes reais. Não há duvida que relacionar-se é um desafio: as pessoas são diferentes umas das outras e se, por um lado, a diferença acrescenta e enriquece, por outro lado ela implica a difícil aprendizagem da aceitação e do ajustamento mutuo.
Assim, estabelecer vínculos é um processo que muitas vezes inclui dor e sofrimento. Quem se relaciona com profundidade sabe que não são poucas as vezes em que se surpreende, se magoa, se cede, se perdoa e se é confrontado pelo outro. Mas quão reconfortante, por outro lado, é a alegria da companhia, a segurança de pertencer, o aconchego e a certeza do afecto.
O bem estar que se busca não é imediato nem passageiro quando estamos a construir vínculos duradouros. Além disso, prevalece o "nós" sobre o "eu", já que relacionamentos saudáveis são vias de mão dupla.
Mas se é verdade que relacionar-se é difícil e dá trabalho, fugir desse processo é negar-se amar e ser amado.
E defender-se do amor acaba gerando apenas solidão e infelicidade.
Texto totalmente adaptado de Damáris Jardim Trindade (Psicóloga)
Assim, estabelecer vínculos é um processo que muitas vezes inclui dor e sofrimento. Quem se relaciona com profundidade sabe que não são poucas as vezes em que se surpreende, se magoa, se cede, se perdoa e se é confrontado pelo outro. Mas quão reconfortante, por outro lado, é a alegria da companhia, a segurança de pertencer, o aconchego e a certeza do afecto.
O bem estar que se busca não é imediato nem passageiro quando estamos a construir vínculos duradouros. Além disso, prevalece o "nós" sobre o "eu", já que relacionamentos saudáveis são vias de mão dupla.
Mas se é verdade que relacionar-se é difícil e dá trabalho, fugir desse processo é negar-se amar e ser amado.
E defender-se do amor acaba gerando apenas solidão e infelicidade.
Texto totalmente adaptado de Damáris Jardim Trindade (Psicóloga)


